Como perdi o juízo

terça-feira, 20 de outubro de 2009 |

O relato a seguir mostra como fazer melodrama com a extração de um dente.

Na sala de espera

Chego meia hora antes do previsto. Escovo os dentes. Passo na recepção para confirmar minha chegada. Espero; e muito. A cirurgia marcada para as três horas só inicia as quatro. Atraso não justificado. Cochilo na cadeira. Tento fingir que não estou com sono, simulo estar assistindo a Sessão da Tarde. Acabo por prestar atenção. A mulher na minha frente berra ao telefone: “Está atrasado!”. O recepcionista ri. Da sala do dentista saem pessoas com caras não muito alegres. Com uma gaze na boca uma menina sai chorando. A auxiliar do dentista me chama.

Na sala do raio-X

A auxiliar coloca um colete de chumbo em meu tórax para proteger meus órgãos nobres da radiação. Vai para traz de uma proteção. Não entendo o motivo de ela estar mais protegida que eu. Liga a máquina que solta um som agudo. O dentista entra na sala e tira a chapa de minha boca. Tira o colete e me manda levantar. Enquanto caminhamos ele pergunta: “Preparado?”. Humor fora de hora.

Na sala do dentista

A sala dividida para dois dentistas. Separada apenas por uma pequena “parede” de madeira. Uma mulher loira, cabelo assanhado, necessitando retocar a raiz, fala compulsivamente: “Me desculpe doutor, estou muito nervosa. Está doendo muito. Da outra vez não foi assim. Me desculpe doutor”. Ótimo incentivo. Manda-me sentar. A cadeira é pequena e meus pés ficam de fora.

“Vamos lá?” pergunta o dentista. Não é preciso responder. Pega a seringa da anestesia e sai furando minha gengiva. “Essa parte é chata né? Daqui a pouco não vai sentir mais nada”. Sinto minha gengiva inchar. Pega o bisturi. Não sei o que faz, vejo apenas duas enormes cabeças que insistem em olha para minha boca: o dentista e a auxiliar, que segura o insuportável sugador.

Melodramático que sou deveria me chamar Luiz Miguel. Não gosto de dentistas, nem de médicos. São mesquinhos. Cortam e remendam sem a menor solenidade. Não poderia ao menos colocar um solo de violoncelo? Insolentes. Gracejam e conversam baboseiras. Acho que a anestesia me faz variar das idéias. Penso besteira. Penso em como é absurdo que abra minha boca pra dois estranhos. Penso como é absurdo que pedaços de mim parem no lixo. Penso na loira despenteada do outro lado da “parede”.

Distrai-me com os devaneios até que um estalo me faz voltar a realidade. Era o dentista que forçava o dente com o alicate. Meu maxilar dói. A língua está seca. O tubo metálico passeia pela boca através das mãos da auxiliar. Meu sangue indo para o esgoto. Um absurdo. Depois de muito trabalho o dentista extrai o dente. Para finalizar borda quatro pontos grosseiros. O dente? Uma coisa horrorosa. Um aborto. Leva-me de volta ao raio-x, é necessário saber se ficou algum pedaço. Tudo certo. Não senti nada. Na hora...

Recomendações: compressa com gelo (lembro que não enchi as cubas), sorvete, nada de esforço físico (acho que ele não anda de ônibus), e três medicamentos. Saio do consultório. Sinto que todos olham pra mim.

Na rua

Sinto minha cara inchada. Metade de minha boca não me pertence. O lábio inferior parece pesar meio quilo. Sinto-me um Zulu. É preciso achar uma farmácia. Ando olhando em todas as superfícies refletoras se meu rosto está normal. Tenho a impressão de estar andando de boca aberta. Encontro uma farmácia.

Na farmácia

Mal posso falar por causa da gaze que mordo para estancar o sangue. “Quero esses medicamentos”. A atendente procura, encontra dois. “Não tem mais Profenil Entérico não?”. “Vendi o último pela manhã”, responde a caixa. Algum infeliz foi mais rápido que eu. “Tem banheiro?”, pergunto. Sigo por um corredor escuro. Entro no banheiro. Tiro a gaze. Jogo no lixo. Lavo as mãos e saio. “Moça tem copo?”. Dirijo-me ao bebedouro, encho o copo e pego os comprimidos. Derrubo por três vezes seguidas papeis que carrego no chão. Não sinto a boca, tenho medo que a água escorra. “Tchau”. Pela rua divago com pensamentos pueris. Encontro outra farmácia.

-Moço tem esse remédio?

-Tenho esse e o genérico.

- O genérico.

Vou embora com horários para tomar a medicação. Pego o ônibus lotado. Desço no terminal. Subo em outro ônibus e vou para casa. Sempre com pensamentos descompensados. A anestesia passa. Uma dor cínica insiste em não passar. “As pessoas deveriam ser anestesiadas antes de morrer”, divago. Um buraco latejante. Febre. Bochecha inchada. Desde os onze anos não sei o que são bochechas. Tenho vontade de engordar. Não devo fazer esforços. Nem tomar sol. Nada quente. Se o siso indica juízo hoje tenho apenas metade. Devo esperar pacientemente por sete dias para retirar os pontos. Enquanto isso espero que minhas células não sejam tão egoísta quanto eu e se multipliquem rápido.

5 comentários:

Victor Hugo disse...

A saga de Michel e o siso. Se não lhe conhecesse diria que é uma ótima FICÇÃO. É a sua cara. rsrs

Léo Santolli * disse...

Meu sangue indo para o esgoto. Um absurdo ...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Eu rachei de dar risada com isso.

adorei !

Diógenes de Souza disse...

Piores do que médicos são os jornalistas. Ô raça ruim!

Michel Oliveira disse...

Eu gosto DE ALGUNS jornalistas. Tem deles que são bem legais, kkkkkkkkkkkkkkkkk

Ela disse...

E eu já tive vontade de tirar meu siso... Ainda bem que passou.

:*